10 de jul de 2012

Pantera negra


Muitas vezes, quando voltamos ao tempo para relembrarmos fatos, vivências, experiências, somos invadidos por sensações que achávamos estarem perdidas para sempre. De repente estas sensações nos invadem novamente, feito um tsunami, e força-nos a revivê-las com os olhos do presente. O resultado que aparece nem sempre é o esperado.

Desfile Modas. Este é nome da loja em que mamãe comprava os tecidos que viravam lindos vestidos nas mãos das costureiras locais. Eu fico pensando como é que em uma cidade tão longínqua da capital como Araçatuba (533 km), poderiam existir costureiras habilidosas, capazes de transformar o desejo às vezes sofisticados de suas clientes em roupas que não ficavam nada a dever a ateliers de centros de moda como Paris e Milão. Pois elas existiram e ainda existem por lá. Isto mostra que o talento pode surgir e frutificar em qualquer lugar. Deus os dá sem preocupações geográficas. Onde cair, caiu.

Pois foi para o casamento de seus sobrinhos Ivo Tozzi Filho e Regina Beatriz, em que papai e mamãe haviam sido convidados para padrinhos do religioso, que mamãe fez um vestido muito especial. A começar pela cor: preto. Na época - anos 70 - existiam regras de conduta que não aconselhavam o uso do preto e de cores muito próximas ao branco para as madrinhas. O preto carregava uma aura de luto, ao invés de comemoração. Visto por este ângulo, poderia vir a ser entendido como provocação.

Pois preto foi a cor escolhida por mamãe. Certa de sua escolha, ela fora até o Desfile Modas, com um modelo de inspiração às mãos, à procura de um tecido que viesse a cair bem no vestido idealizado. Lá, fora recebida pelo figurinista da casa, que era seu conhecido, e que, gentilmente dispôs-se a desenhar o modelo pretendido. O mais legal de tudo foi o tecido escolhido, que também à época não era usual para este tipo de cerimônia: a malha pesada. E foi uma malha preta e pesada a escolhida. Sem dúvida, ela daria o caimento necessário para o vestido criado.

Abro um parêntese aqui para a profissional escolhida para fazer o vestido. O seu nome é Marlene Brandão, profissional de primeiro time, reconhecida há muitos anos como uma designer de roupas femininas sofisticadas em todo o Brasil. Em outras palavras, pode-se dizer que ela faz alta-costura, apesar de saber que este termo só possa vir a ser utilizado pelas maisons estabelecidas em Paris. Em qualquer outra localidade, diz-se que o que se faz é prêt-à-porter.

Marlene foi quem viabilizou e deu cara à criação de mamãe. Eu, à época, era uma criança, mas confesso que ao ver mamãe vestida, pronta para a festa, acreditei que estava diante de uma pantera negra.

(*) Segundo minha mãe, que acabou de ler o post, o tecido referido no texto foi comprado na loja paulistana Hasson. Portanto, a Desfile Modas entra aqui apenas como uma licença poética à minha imaginação.


O texto acima serve de inspiração para a etiqueta que desenvolvi e produzi para um atelier também pra lá de especial chamado A MODISTA. A etiqueta foi feita em 2005. Ao entrar na loja, a sensação que temos é de uma volta ao passado. Um passado onde o glamour, elegância eram a tônica da época. Tudo lá é muito especial, desde a exposição das roupas, penduradas em cabides presos ao teto, até os modelos das roupas propriamente ditos. A proprietária, Gisele, também restaura e repagina vestidos de herança de família.


A etiqueta feita é simples e elegante: o logo é bordado sobre base cetim, em duas variantes de cores: o preto e o branco.


Este desenho foi feito pela artista plástica BIBA, que conheci casualmente, em visita ao seu atelier, na Vila Madalena, em S. Paulo. Os vestidos retratados não são negros, mas o fundo do desenho, sim.


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