21 de jul de 2012

A velha e o ipê amarelo


A velha sentada na calçada.
Acima dela, apenas o ipê amarelo carregado de flor.
A seus pés, o tapete amarelo das flores jogadas ao chão.
À sua frente, todos os que ali passavam a pé, 
de bicicleta, moto, carro ou caminhão.
A seus olhos, eram todos conhecidos de longa data ou não.
Afinal, não sei qual dos dois - a velha ou o ipê - era o mais velho.
Certeza, certeza mesmo era que ambos estavam ali há pelo menos 50 anos.
Todos os dias era um tal de bom dia, boa tarde e boa noite.
Aos que paravam para cumprimentá-la, falava-lhes da saúde (já bastante debilitada),
da família (muito agarrada) e das coisas triviais (como o circo recém chegado).
Em troca, recebia notícias quentinhas vindas de todos os cantos da cidade:
os últimos falecimentos; os casamentos; separações; nascimentos;
batizados; aniversários de 1 a 100 anos.


Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo


Quem não a visse na calçada, já sabia: ou tinha ido rapidinho ao banheiro,ou fora tomar um cafezinho, ou então dera uma escapadela para almoçar ou jantar.
Tomar banho durante o dia, jamais..
Isto é coisa que ela fazia somente após escutar o sino da igreja badalar as 6 horas.
Rezava então a Ave-Maria, recolhia a cadeira para o alpendre e entrava para dentro de casa.
O vidro da porta-de-entrada, iluminado pela luz acesa na sala, denunciava o final de mais um dia.


Quando era mais jovem, havia certa vez feito um lindo poema que falava de uma senhora sentada na calçada toda tomada pelas folhas de um velho ipê amarelo. Por alguma razão, anos mais tarde, rasguei todas as poesias feitas na juventude. A poesia da velha senhora - porém - apesar de mais não mais lembrá-la, ficara na memória. Foi então que resolvi agora - na fase adulta - fazer um novo poema, inspirado na imagem que havia ficado guardada na memória. Esta, nem que a gente queira, conseguimos rasgar.

E para ilustrar esta poesia, escolhi uma linda etiqueta que criei, desenvolvi e produzi para a marca de roupas feminina SENHORITA BLACK. Ela é feita até hoje em duas variantes de cores: fundo branco e preto (positivo-negativo). 


Para dar mais charme às peças criadas, desenvolvemos e produzimos esta almofadinha (etiqueta dupla-face com enchimento), que foi usada em diversas coleções, fazendo companhia às etiquetas aplicadas às peças.


SENHORITA BLACK: se a senhorinha de minha poesia a tivesse conhecido, certamente teriam sido grandes amigas.

PS: Fotografei o painel que inicia este post na frente de um velho sobrado, no Brooklin, S. Paulo. Quando tirei a foto, nem sabia a razão do porquê. Como disse Blaise Pascoal, "o coração tem razões que a própria razão desconhece.". Falei e disse.

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