28 de jul de 2012

Concerto em fá (fã) maior


A prima tocava piano. A música que saía do instrumento tocava a minha alma. Era sempre assim. Ela ficava ali, sentada na pequena banqueta estofada de veludo carmim, e eu permanecia ao seu lado, olhando para o movimento de suas mãos junto às teclas a formar melodias.


Eu não entendia nada de música clássica, mas compreendia muito de harmonia. E harmônicas eram aquelas teclas posicionadas lado a lado em formação de difícil compreensão. As brancas mais pareciam jovens donzelas arianas e as pretas, doces meninas africanas. Juntas, eram responsáveis pelo som cristalino que saía de dentro daquele piano de mogno escuro. As mãos da prima ainda eram muito pequenas para alcançarem toda a extensão de certos acordes, mas eram suficientemente grandes para tocarem o meu coração.


As visitas à casa da prima tornaram-se muito mais desejáveis depois que ela começara as aulas de piano. As mesmas eram dadas por uma professora especialmente contratada por sua mãe, para que a filha pudesse aprender o instrumento no mesmo piano que fora seu. Nunca vou me esquecer do ritual empreendido por ela antes de cada seção. Primeiro ela retirava as partituras que ficavam guardadas no compartimento logo abaixo do assento de veludo.


Feito isto, baixava novamente o mesmo e sentava-se em posição de respeito. Em seguida, levantava a pesada tampa que guardava as teclas e retirava de cima delas o tecido feito de feltro verde musgo que as recobria, protegendo-as da exposição ao tempo e ao pó.


Só então escolhia a partitura desejada, abria-a e posicionava-a à sua frente. Daí para frente era música só.
Com certeza fui apresentado pela prima a ilustres compositores como  Franz Liszt, Ludwig van Beethoven, Frédéric Chopin, Vivaldi  e tantos outros.Não saberia à época identificá-los ou apontar-lhes as características, semelhanças e diferenças musicais. A única coisa que a prima poderia esperar de mim era - além de fazer-lhe companhia nos bifes que me ensinara (e eu adorava) - ser-lhe seu mais fiel expectador, além de seu fá (fã) maior.

O texto acima serviu de inspiração para apresentar-lhe em primeira mão um concerto - perdão, etiqueta - feita para uma loja de brinquedos que certamente inspira os sonhos de muitas crianças e adultos-crianças feito eu. Ela chama-se FÁBRICA e está localizada no bairro de Vila Madalena, em S. Paulo.
A etiqueta, desenvolvida e produzida, brinca com o lúdico na medida que tem o formato de uma antiga fábrica, com o seu telhado recortado, feito à laser. Ela mostra que a função de uma etiqueta vai muito além de informar a procedência do produto. Dependendo de como é feita, pode também nos fazer sonhar e - até quem sabe - fazer com que voltemos à nossa mais tenra infância. Todas as fotos da etiqueta foram tiradas em um velho parque situado no pátio de uma igreja próxima a minha residência.


PS: A série de fotos de piano, foram tiradas na casa de minha tia, do piano retratado no conto. Foi uma oportunidade única. Aproveitei que estava passando uns dias em Araçatuba e pedi à Carol, filha de minha prima Patrícia - a prima do conto - que fosse até a casa (fechada e razão da viagem de minha tia) fotografar o piano que se encontra até hoje na sala. Ele permanece como na época de minha infância. Fiquei admirado em ver que as cores do assento de veludo e do tecido que recobre as teclas serem exatamente as mesmas retratadas no conto, informadas à mim por minha memória visual.


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