18 de jul de 2013


O vento vinha e teimava em levantar a poeira do chão. A gente tinha que segurar firme o chapéu na cabeça, pois se não o mesmo voava para longe, em meio ao campo aberto do recinto de exposição.

Era neste clima de pó, poeira e alegria que vivíamos mais um ano da Festa do Peão de Boiadeiro, conhecida como EXPÔ ARAÇATUBA.

Tradicional na cidade, ela acontecia - como acontece até hoje - todo início do mês de julho, período de férias escolares. Ou seja, era a festa de abertura da estação que garantia a nós, crianças, dias de muito fazer nada (leia-se não ter que estudar), repletos de muito lazer e diversão.

A exposição tinha sabor de pipoca, sanduíche de carne louca e calabresa, maçã do amor, quebra-queixo, churros etc. A gente ia lá para namorar, paquerar, encontrar os amigos e - por que não - ver cavalos, bois e fazer muita bagunça. Isto sem contar o parque de diversões, onde podíamos nos assustar no trem fantasma, dar umas voltas na roda gigante, girar feito malucos no chapéu mexicano, bater feio nos carrinhos de trombada, apostar a sorte nas argolas, ou quem sabe ainda, ter a sensação de voar pelos ares na centopeia.
As noites eram reservadas aos shows musicais, que sempre traziam um astro ou estrela da música sertaneja.

Naquele ano, não seria diferente. A minha imaginação começou a organizar uma festa em minha cabeça quando soube que Sérgio Reis seria a atração da noite de sábado. Comecei então a planejar o como faria para me aproximar dele e entregar-lhe uma carta - feita de próprio punho - onde lhe diria da minha grande admiração por ele e por sua música; pediria para que nos tornássemos amigos e terminaria dando-lhe o endereço de minha casa para que pudesse escrever-me de volta. Claro que não revelei o meu plano para a minha família, que certamente não me daria apoio.

Escrita a carta, dobrei-a e a levei no bolso de minha calça jeans até a exposição, onde trabalhava como voluntário, juntamente com meus pais e irmãos, na tradicional barraca da pechincha, comandada pela família Carani.

O plano traçado por mim ficou ainda mais próximo de ser realizado com sucesso quando soube que o Sérgio Reis, em visita àquela tarde aos estandes da exposição, passaria também em nossa barraca.

Mal consegui conter a ansiedade, mantendo um olho no atendimento ao público, que lotava a barraca em busca de roupas e objetos semi-novos a preços pra lá de módicos, e o outro olho no movimento externo, em busca de alguma movimentação que indicasse a presença do astro.

O que fora anunciado aconteceu já quase no início da noite, quando Sérgio Reis entrou em nossa barraca, cercado de toda a sua entourage, e foi recebido pelo chefe do clã Carani, Sr. Ezio.

O que eu não contava é que uma grande multidão se formaria ao seu redor, o que me impediu de qualquer tentativa de uma aproximação.

Fiquei com uma raiva danada daquele povo todo aglomerado e pedindo autógrafo. De vez em quando, conseguia enxergar um pouco do seu chapéu e - com muito esforço - alguma visão de seu rosto. Se ele fosse mais baixo, não teria enxergado nada.

A primeira decepção em relação ao meu ídolo viria dias depois de terminada a exposição, quando o mesmo não cumpriu o que prometera ao Sr. Ezio. Disse-lhe no dia da visita que - em contribuição ao trabalho da APAE local - compraria uma das cadeiras ali a venda por uma quantia extremamente superior ao seu valor de mercado. A cadeira permaneceu  intocada até o último dia da feira, com um papel preso a ela com durex onde se podia ler: VENDIDA PARA SÉRGIO REIS.

A segunda decepção pelo cantor veio a conta-gotas, na medida em que os dias foram passando, depois os meses, depois os anos, e a tal da carta em resposta a minha nunca chegou.

Consegui entregá-la naquele mesmo dia, um pouco antes do show começar, tendo-a confiado a um de seus seguranças, já que vira que de forma alguma conseguiria entregá-la pessoalmente ao destinatário. O mesmo pegara a carta e prometera que a entregaria sem falta a ele assim que o show terminasse.

Pois o show terminou e com ele foi-se embora a minha credencial de fã. Passei a odiá-lo a cada vez que o via em algum programa de televisão ou escutava uma de suas músicas nas rádios.

Sérgio Reis: você acabou com o sonho daquele menino da porteira. Troquei você pela Ivete Sangalo e até hoje não me arrependo.

Fato é: não existe ídolo sem fã; o inverso também é verdadeiro. O ídolo é quele indivíduo que a gente cultua, que aos nossos olhos nos parece perfeito, imaculado. Agora, uma coisa é certa. Quando a gente conhece o homem (ou mulher) por trás do ídolo, o encanto se desfaz num segundo. A gente percebe que aquela divindade que colocamos em um pedestal imaginário está cheia de defeitos; feito a gente.

Para ilustrar o conto FÃ, escolhi um trabalho que fiz para a designer de acessórios PAULA FERBER, hoje PAULA VILLALONGE.


Trata-se de uma etiqueta em borracha feita com fundo glitter ouro; o logo aparece em alto-relevo, em tom café. Ela foi utilizada na sola de sapatilhas e tênis de solado baixo, tipo ALL STAR, funcionando como selo de identificação da marca.

Como toda a vestimenta de qualquer ídolo que se preste, ela brilha feito ouro em pó. Fiz uma simulação da etiqueta aplicada na sola de um tênis de lona cru.





Aproveitando a minha estada em Araçatuba, fui até a EXPO ARAÇATUBA, igualzinho fazia na infância, e tirei lindas fotos do parque de diversão. Foi um mergulho ao meu passado, tal qual o conto apresentado. Sérgio Reis não apareceu por lá para cantar. Lá se apresentaram os ídolos da nova geração como Michel Teló, Luan Santana, Claudia Leite e companhia.

































Esta mini-fazenda retrata fielmente a vida no campo, com toda a riqueza que lhe é peculiar: as plantações de grãos irrigadas, represas gerando energia, pescarias à beira do rio, o rodeio sagrando seus campeões, a igrejinha iluminada a receber os fiéis para a missa de logo mais, a vila de camponeses etc.









Eis aqui o verdadeiro rabo de cavalo. Fiquem com inveja, meninas.






Recado do dia: Senhor, livre-me do chifre do touro e da mulher também.





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