2 de ago de 2012

"A vida passa lentamente e a gente vai tão de repente" (Lulu Santos)



O passado registra apenas o que se foi. O presente nos mostra o que - apesar de tudo - ficou.

A loja estava fechada àquela hora do dia: 18:00. Dentro dela, sentei-me na banqueta que fazia uma espécie de lounge e fiquei ali admirando sua beleza; a riqueza dos detalhes arquitetônicos; as cinquenta e tantas lâmpadas de luz dicroicas assentadas no teto de gesso; a beleza dos balcões expositores, balcão principal, prateleiras, todas feitas em mogno maciço; as duas vitrines, a principal - do lado esquerdo - e a secundária - do lado direito - muito bem concebidas; a porta de entrada também de mogno, com uma série de quadrados - de cima a baixo - preenchidos por vidro. Enfim, ficaria aqui talvez um bom tempo expondo os detalhes desta loja de roupas masculinas que fora fruto do sonho empreendedor de dois irmãos - eu e José Augusto - e que ao custo de um capital investido significativo - resultou naquele local onde eu me encontrava ali sentado.

os sócios

A luz do dia ainda incidia em seu interior, valorizando alguns pontos e deixando outros na penumbra. O ano era o de 1991. Dali a alguns dias fecharíamos a mesma. A razão principal não era dívidas ou coisa parecida. A decisão viera da constatação de que esta - analisadas todas as circunstâncias - viria a ser a melhor saída. Ou pelo menos a mais digna. A loja começara como uma franquia da marca fantasia Polo Spryder. No decorrer do tempo vimos que o franqueador não tinha ou exibia as mínimas condições para que o negócio viesse a ser mantido. Das alternativas possíveis para a continuidade do negócio, a que mais parecia viável seria a transformação da mesma em uma loja multimarcas. Mas este não era - pelo menos para mim - o caminho desejado. Quando resolvemos entrar no mercado local (Araçatuba), fizemos o que parceia vir a ser um caminho original para a época. Até onde sei, não existiam ali empreendimentos voltados para o mercado de moda realizados com a chancela de uma franquia. Apostamos então em uma marca e procuramos fazer dela uma referência de produto voltado para o mercado de luxo. A decisão fora acertada. Já o franqueador não. Mas não vou me ater aqui a esta questão, procurando respeitar os longos anos que já se passaram desde então.

a fachada - antes e depois

Prefiro fazer um balanço de tantas coisas que aprendi e de tantos momentos de sucesso que vivi. Para um tempo curto de tempo, foram muitos os ganhos e vitórias. Jamais poderei esquecer-me das palavras de uma cliente dirigidas a mim, radiante com a beleza que ela presenciava: - " Nossa, Beto, parece que estamos em pleno Natal, em Nova York. Esta música clássica, a neve (artificial) que cai das vitrines, a decoração....". Ceci Picolotto, senhora conhecida na sociedade local como referência de sofisticação, elegância e bom gosto, estava admirando a loja em seus dias de inauguração. Estávamos no Natal de 1990.

interior da loja

Aprendi a fazer vitrines, cuidar da exposição das mercadorias dentro da loja, atender os clientes, cuidar de toda a parte administrativa e burocrática. Pude exercitar ali também todo o aprendizado anterior que trouxera dos anos anteriores trabalhados em agências de publicidade como redator. Cuidei pessoalmente dos materiais de divulgação da loja como convite de inauguração, material promocional de divulgação de
lançamentos, promoções e liquidações; anúncios de jornais, revistas e outdoors; além de peças institucionais feitas para as rádios locais.

convite da inauguração da loja

Enfim, sentado ali naquela banqueta, com o coração apertado diante da decisão tomada, pude sentir o quanto certas situações - mesmo as mais acertadas - podem nos trazer tanta dor. Falo da dor da perda; da despedida; do fim de algo que um dia fora iniciado.Mas como o que move a vida é o movimento, fiz daquele momento o que o mar me ensinou: lancei  em suas ondas os meus melhores desejos e intenções e voltei no dia seguinte para ver o que a maré trouxera para mim.


 Todas os registros aqui apresentados foram guardados por mim durante todos estes anos como um troféu pela coragem tida, pela vontade manifestada, pela realização empreendida.

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