23 de ago de 2012

O dia em que as torres gêmeas vieram abaixo


ilustração de Hardy Ecke

Diante de um fato grave não planejado ou imaginado, esqueça o que havia planejado. Jogue fora o que fora agendado e permita-se viver o novo, o desconhecido que veio para botar de ponta-cabeça tudo o que existira até então.

Quando as torres gêmeas vieram ao chão em Nova York eu me encontrava em Curitiba, PR, trabalhando. Nunca mais irei me esquecer das primeiras imagens vistas. Encontrava-me na rua, a visitar clientes. Andando pelo centro da cidade, observei uma televisão ligada em um bar. Parei para olhar e acreditei tratar-se de um filme de ação. Fiquei completamente atônito quando vi o letreiro indicar que tratava-se de "um acidente aéreo". Tentei ainda trabalhar, mas na medida que o tempo ia passando, via que a cidade estava parada olhando para os televisores. Resolvi então procurar um local para almoçar e pensar no que poderia fazer. É nestas horas que vemos o como a programação que fazemos para um dia, semana, mês, ano, ou anos, pode vir a ser inteiramente comprometida por um fato não previsível.

Achamos que somos donos do tempo, mas efetivamente não o somos. Dadas certas circunstâncias, a gente pode prosseguir fazendo o planejado, mas às vezes, diante de algum fato inusitado, somos obrigados a mudar o rumo da história; pelo menos o da nossa história pessoal.



Aquela viagem a Curitiba havia sido programada para que eu viesse a vender a coleção de alto verão que a Companhia de Linho, empresa para a qual trabalhava, havia feito para o ano de 2001. A gravidade do
acontecido comprometeu totalmente o meu trabalho, já que a atenção e o interesse de todas as pessoas estava voltado ao que vim a saber depois vir a se tratar de um atentado terrorista.

Este acontecido faz-me refletir sobre os longos seis anos em que estive envolvido com a venda de roupas e acessórios para marcas como IT'S, OCIMAR VERSOLATO, HUIS CLOS, COMPANHIA DE LINHO e, finalmente em 2002/03, FAUSE HATEN.

As funções exercidas junto a estas empresas foram todas ligadas a vendas, seja como vendedor interno, seja como supervisor de vendas ou como gerente comercial. Em comum a todas elas existia a atuação junto a um mercado de produtos premium ou de luxo. Foram muitas as viagens empreendidas para visitar lojistas de praticamente todas as regiões do Brasil. Poucas foram as capitais brasileiras em que não estive presente.

Estes anos de atividade fizeram-me refletir sobre o mercado de luxo no Brasil e a tentar entender o mecanismo que o faz existir e se perpetuar. Excluindo-se as lojas próprias e franquias, o restante deste mercado é preenchido por lojistas multimarcas que revendem em seus mercados locais - em grande parte das vezes - com exclusividade, as grifes de alguns estilistas escolhidos a dedo. Este é um mercado pequeno, que tem um número bastante restrito de estabelecimentos que se encontram aptos a comercializarem este tipo de produto. Estes estabelecimentos, pelo que pude conferir ao longo dos anos, não crescem na mesma proporção em que nascem novas marcas. Estas são em número muito grande para serem absorvidas por estes lojistas. O resultado disto é uma verdadeira guerra travada entre as marcas. Ganha quem tem mais visibilidade no mercado, seja através da participação nos eventos de moda como o Fashion Week, seja através de terem sido "adotadas" pelos editoriais de moda das revistas de estilo e de moda, ou pelo investimento de marketing e propaganda que cada uma delas empreendem. Muitas vezes os donos destas marcas, a maioria deles criadores, não entendem o porquê de suas vendas, em determinadas coleções, não corresponderem ao que eles desejavam ou acreditavam poderem alcançar.

Na maioria das vezes se esquecem de um detalhe muito significativo, mas que a maioria não quer ou consegue assumir: erraram a mão no tema escolhido, na elaboração das peças, na precificação, na cadeia produtiva, na distribuição ao mercado. Para estes profissionais, dado o tamanho de seu ego, se há algum erro para não terem alcançado o êxito esperado nas vendas, certamente ele não está consigo, mas com a equipe de vendas, incluindo aí vendedores, supervisores e gerentes comerciais. Isto, em grande parte, explica o
porquê da alta rotatividade destes profissionais de vendas no mercado. Os mesmos vão trocando de endereço num ritmo muitas vezes frenético. A tentativa é sempre a mesma: mostrar ao estilista de plantão que o poder de fogo de seu trabalho e de sua expertise farão toda a diferença nas vendas da próxima coleção. Tô fora!

Esta matéria AS "DASLUS" DE VÁRIOS SOTAQUES retrata com precisão o mundo do luxo no que se refere às lojas multimarcas que revendem as coleções de grandes estilistas.



Tenho o privilégio de dizer que já negociei a venda de coleções para cada uma das lojistas aqui retratadas. Pode-se dizer que elas são as logistas top deste segmento de mercado. Com exceção de Tereza Tinoco (Natal - RN), visitei cada uma destas lojas, algumas delas mais de uma vez.

A seguir, mostrarei algumas fotos guardadas com muito carinho de diversos momentos profissionais que tive, todos eles envolvendo a visita a lojistas de diversas cidades.

Fui contratado como vendedor free-lance para este showrom, que foi o primeiro deste estilista no Brasil. Na época, Ocimar Versolato tinha o seu ateliê em Paris, França, e comandava a marca diretamente de lá. Tive o privilégio de ter sido escolhido - entre os dois vendedores contratados - para dar prosseguimento às vendas no final da coleção, quando não mais seria necessário a presença de dois vendedores.

 


Resgatei a agenda que mantinha na Cia de Linho, quando se deu a história contada. Nela encontra-se anotada por mim uma linda frase proferida por Marx: "...Todas as coisas que amo, deixo-as livres, se voltarem as conquistei, se não, jamais as possuí..." Ainda acredito nela.

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