29 de set de 2012

Ode ao pé



Homens e mulheres com os pés no chão. Por incrível que pareça, parece que este tipo de gente está ameaçado de extinção. Proponho que se faça uma O.N.G para defendê-los da sociedade de consumo predadora. O que fazer com tanto "compre isto; compre aquilo; é só até amanhã; imperdível; não perca tempo; agora você pode! E deve!"

Pé de atleta:
Diz-se de um pé bastante feio, detonado
Pé de cabra:
Diz-se sobre um instrumento chave para assaltantes em geral
Pé de boi:
Diz-se de um workaholic
Pé de valsa:
Diz-se de alguém que adora dançar tudo, menos valsa
Pé de moleque:
Diz-se de um doce de amendoim ótimo para se fabricar pum
Pé frio:
Diz-se de alguém que não tem sorte na vida; ou tá com a meia furada
Pé quente:
O contrário do indivíduo anterior
Pé de meia:
Diz-se de toda reserva de valor que não se encontre em algum banco grego
Ao pé da montanha:
Desde quando montanha tem pé?
No pé do ouvido:
Se isto existir, o meu é 42
Pé chato:
Coitado!
Sem pé nem cabeça:
Alguma aberração da natureza
Enfiar o pé na jaca:
Diz-se de alguém que meteu os pés pelas mãos
Pé no freio:
É o que todo marido pede à esposa quando esta vai ao shopping
Escalda pés:
Ótimo para tirar chulé ou queimar calo(ria)
Bicho de pé:
Docinho cor-de-rosa que todo marmanjo gosta, mas não assume
Com o pé na cova:
Diz-se de alguém cuja senha já é a próxima a ser chamada
Pé na estrada:
Diz-se dos que vão pagar pedágios sem fim
Ao pé da letra:
Diz-se de alguém que fala, deda, conta e entrega tudo direitinho ao outro
Acordar com o pé direito:
Sonho de todo canhoto
Pé no chão:
Diz-se de alguém que pode ser tudo, menos poeta
Poeta:
Diz-se de alguém que vive com a cabeça na Lua
e escreve com os pés nas mãos palavras
que podem não ter pé nem cabeça

Depois de vermos e analisarmos tantos tipos de pés, nada como embalá-los em um bom par de sapatos.


Apresentarei a seguir a etiqueta, em duas variantes de cores, que desenvolvi para a marca de sapatos e bolsas SHOESTOCK.


Aproveitarei a deixa para mostrar-lhe um belíssimo trabalho de ilustração feito pela ilustradora Carine Brancowitz para a revista italiana VOGUE PELLE. Esta edição - que mantenho em meu acervo pessoal - teve a capa e nove páginas dedicadas as ilustrações desta artista. Uma mais linda que a outra. Confira.


Fim de tarde frio nesta última quinta-feira. Passando pela alameda Gabriel Monteiro da Silva avistei estas pernas femininas gigantes dependuradas na fachada de uma loja de objetos de decoração. Será que os sapatos vermelhos que esta boneca gigante está calçando são da SHOESTOCK?



(*) todos os tecidos mostrados aqui foram desenvolvidos pela equipe de marketing da Helvetia, encabeçada pela minha querida Milena Sliumba

27 de set de 2012

Morador de rua. Cidadão do mundo.


Sabe aquele ditado que diz: "de perto todo mundo é louco". Eu concordo com ele e, apenas, acrescento: louco bonito ou feio. 

Acabei de desligar o telefone. Era ele, Oscar. Quem o vê hoje emprestando seu rosto e corpo para as principais marcas de roupas, acessórios e perfumes de luxo americanas, europeias e japonesas, não conseguiria reconhecê-lo na pessoa que eu vi anos atrás. Se você acredita na máxima que diz " o mundo dá voltas", você vai concordar que a vida de Oscar se encaixa nela como uma luva.

A primeira vez que o vi foi a caminho de meu trabalho. Era uma manhã fria de inverno que não convidava ninguém a ficar na rua.


Mas era exatamente lá que ele se encontrava. Olhei-o de frente e pude enxergar em meio àquele rosto sujo, olhos de um verde esmeralda. Os olhos, aliás, eram a única parte de seu corpo que parecia livre da poeira e da sujeira.


Oscar era um dentre tantos moradores de rua da cidade. A única diferença é que escolhera as ruas dos jardins, bairro nobre de São Paulo, para morar.

Quando o vi, percebi que atrás de toda aquela sujeira existia um homem bonito, de olhos encantadores e rosto anguloso. Pensei: uma vez limpo e bem-cuidado, poderia, se quisesse, virar um modelo. Eu não sei dizer quantas vezes mais o vi entre as minhas idas e vindas ao trabalho. O fato é que a cada vez, a impressão inicial que tivera se reafirmava.


A sorte começou a piscar para Oscar quando certo dia conheci André, booker de uma das agências de modelos de maior prestígio em São Paulo. André é um cara aberto, ousado, que vive a vida entre os limiares da aventura, loucura e bom-senso. Quando contei-lhe sobre o mendigo em questão, seus olhos brilharam. Senti que aquilo mexera com ele. Perguntou-me em que rua poderia encontrá-lo, pois queria vê-lo.


Dias depois, para a minha surpresa, recebo uma ligação de André: - Cara, você não vai acreditar! - disparou a falar, encavalando uma letra na outra, tamanha era a sua ansiedade.

- Acreditar no quê, André?- Sabe aquele mendigo a quem você se referiu em nosso último encontro?

- Claro, André. Como é que eu poderia me esquecer?

- Pois, é...ele está morando comigo. - Nesta hora o telefone quase caiu de minha mão. Não é que a minha intuição de que ele ficara interessado na história havia mesmo se confirmado?, pensei.

E ele continuou: - Cara, foi difícil como quê convencê-lo a sair daquele buraco em que se encontrava e vir comigo. Falei que tava a fim de ajudá-lo a mudar radicalmente de vida. Disse-lhe que o transformaria em um modelo. Finalmente ele topou.

Perguntei pelo nome dele e ele respondeu: -Oscar. O nome dele é Oscar.

Para que não nos estendamos demais nesta história, vou resumidamente dizer-lhe o que se sucedeu daí em diante.

André usou de toda a sua expertise para fazer de Oscar o que ele é hoje: um modelo que vive em Nova York e trabalha no eixo Nova York, Paris, Tókio, Milão. Desfila e faz campanha para os mais renomados estilistas, de A (Armani) a Y (Yves Saint Laurent). E diante disto você pode me perguntar:
- E você, o que ganhou com isto? - E eu lhe respondo: ganhei a certeza de que lixo e luxo podem vir a ser sinônimos e não antônimos. E que o lixo, se bem cuidado, pode vir a se transformar em luxo. E para terminar digo-lhe que o meu maior presente foi ter ganho um grande amigo.

Pena que a estória acima não seja história. Ela foi baseada em um mendigo que via com frequência nas ruas dos jardins na década de 80. Pena que à época eu não conhecesse um booker a quem pudesse apresentá-lo. Com toda a certeza, se adotado por um deles, ele certamente teria se transformado no Oscar de nosso conto. Mas a vida não é um conto de fadas. Definitivamente.

Para ilustrar esta estória, apresentarei-lhe a seguir dois produtos feitos para a marca de acessórios SANTA LOLLA: uma linda etiqueta que desenvolvi e produzi para uma de suas coleções, e um tecido muito bonito que foi utilizado por eles durante muitos anos como forro de suas bolsas.

Para mostrar a etiqueta, utilizei como pano de fundo uma coleção antiga de cartões-postais inglesa que retrata a história dos calçados femininos. Ela foi comprada por mim em um sebo e pertence ao meu acervo pessoal.


Já para mostrar o tecido, fui dar um passeio com ele na Oscar Freire, onde tomei um café na doceria Dulca...

...e visitei a Galaleria Melissa.


Em homenagem ao Oscar do conto, nada melhor do que apresentar a Oscar Freire.


À caminho da Galeria Melissa, fiz um pequeno pit stop do tecido em uma das diversas placas indicativas das lojas ali presentes.


Deixei o tecido descansar um pouco em um dos charmosos banquinhos da rua. Afinal, ninguém é de ferro.


(*) nota: a bolsa preta utilizada não é da marca Santa Lolla; utilizei-a apenas para compor as fotos do tecido. As imagens dos modelos "sem teto" desfilando, são da Milan Fashion week, apresentando uma coleção de Vivienne Westwood.