25 de set de 2012

Virgem Maria!


No sertão nordestino nada escapa ao cordel. Nem mesmo a história de Nossa Senhora de Fátima

A casa era de taipa. Afora ela e alguns tufos de mato aqui e ali, o que se via pela frente era um chão cor de tijolo todo craquelado. Na pequena casa de taipa viviam a mãe, Zeferina, o pai, Sebastião e a pequena Fátima. A lhes fazer companhia, Zorro, o cachorro cujo olho direito era envolto à uma mancha preta, além de um bode e duas cabras. Faltava tudo para aquela família: água, sombra, conforto, distração,comida, estudo. De abundante mesmo, apenas a fé e a religiosidade. O terço era rezado por todos, todos os dias, antes do Sol se por no horizonte. O mesmo fora ensinado por um padre que aparecia de vez em quando no povoado, montado no lombo de um jumento. Fora ele quem dera de presente à Zeferina um livreto de cordel que contava a história das aparições de Nossa Senhora de Fátima aos três meninos, em Portugal. Apesar de não saberem ler, aprendiam a história através das fartas ilustrações. E para não esquecê-la, faziam o padre lê-la todinha a cada uma de suas visitas. O nome de Fátima fora dado à filha em homenagem à Santa. Zeferina acreditava piamente que um dia a mesma também iria aparecer a ela. E para afirmar sua crença, além de dar o seu nome à própria filha, elegeu-a como madrinha da menina.


Os anos foram se passando até que Fátima completou nove anos de idade. À esta altura ela já tinha as suas próprias convicções e certezas, igualzinho a mãe. Certo dia, cansada de ver Zeferina ajoelhada diante de um arbusto seco à espera da Santa, Fátima lhe disse em tom profético: "Mãinha, não adianta a senhora ficar aí ajoelhada, perdendo o seu tempo. Nossa Senhora não vai aparecer e, sabe por quê? Aqui, nessa terra perdida, onde nem a chuva sabe o caminho para chegar, não tem nenhuma árvore que mereça a Santa descer.". A mãe olhou para a filha, completamente espantada: "Como é, menina! Que heresia é essa saindo de sua boca?". "Heresia nada, mãinha.", disse a menina, como que conduzida pela visão da Santa. E continuou: "Para descer aqui, só se for em cima de um cacto. Isto não pode, pois vai machucar a Virgem todinha. Ou então, nestas arvorezinhas de galhos secos e empoeirados, o que vai sujar a roupa branquinha de Nossa Senhora.". À esta altura, a mãe, ainda ajoelhada, abriu a boca e já não tinha mais dúvida: a filha estava lhe fazendo uma revelação. A menina continuou: "Só nos resta uma saída. Irmos embora de vez daqui e morarmos em um lugar onde se possa ver a mata e onde as árvores brotem verdes da terra. Quando a gente chegar, é só a senhora escolher uma árvore verdinha e se ajoelhar diante dela. Pronto. Nossa Senhora de Fátima há de aparecer.". Zeferina, com os olhos cheios de lágrima, (isto já era um milagre, dado o tamanho da seca daquele lugar) entendeu que a a Santa usara Fátima, sua filha, para revelar-lhe o grande segredo: a família tinha que se mudar dali imediatamente. Assim foi.


Apesar de não ter minha vida baseada na realidade do sertão, eu tive um desejo que brotou de minha alma: fazer uma estória que se passasse ali, naquela terra de Sol escaldante, onde o que se pede, literalmente, é um pouco de sombra e água fresca. A partir desta ideia, surgiu-me a vontade de recheá-la com um pouco de religiosidade. A mesma religiosidade que me levou, ainda garoto, a colecionar livrinhos com as histórias das santas, além de colecionar também aqueles santinhos de papel, cada qual com a imagem e a oração devotada à um determinado santo(a). Não que eu fosse um santo, propriamente dito, mas já tinha minhas inclinações para a santidade; os pecados moravam apenas ao lado.

Para ilustrar o conto acima, apresento-lhe a etiqueta e o galão (fita) que fiz para a loja COISAS DA DORIS. A etiqueta foi desenvolvida para mostrar a parceria entre  a O.N.G ORIENTAVIDA e COISAS DA DORIS.


Ela tem fundo azul claro e os logos em branco. Já a fita é utilizada para fazer os pacotes de presente da loja. O fundo é em tafetá branco e traz o logo da loja - além do endereço eletrônico - em fio de lurex prata.

Levei a etiqueta e a fita para uma sessão de fotos na Bienal de Arte de São Paulo. Isto mesmo. Aproveitei a exposição e tirei inúmeras fotos da etiqueta junto à diversas obras de arte. Os monitores e seguranças do local não entenderam muito bem. Cada vez que a etiqueta caía ao chão, um deles aparecia: "O que é isso?". "Nada, nada..." eu respondia: " É apenas uma etiqueta.".

 

Já ao final da exposição, cansado, avistei um sofá acolhedor de cor roxa; ao seu lado, encontrava-se um biombo em metal prateado. Pronto, estava ali o cenário ideal para fotografar a fita de presente da COISAS DA DORIS.

 

Saindo do prédio da Bienal, olha o que encontrei pela frente.


Nesta última sexta, voltando de um cliente, passei em um supermercado e vi estas velas dedicadas a santos. Lá estavam as de Nossa Senhora de Fátima. Mais uma coincidência? E você acha que não cliquei?


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