7 de mar de 2013

Pesque e pague pra ver


Tudo fazia crer que seria uma pescaria tranquila. Avô e três netos curtindo uma linda manhã de Sábado na beira do rio. O que vovô não imaginava é que um de seus netinhos querido estava com os "cornos virados", como ele mesmo costumava dizer quando alguém não estava bem. Este netinho sou eu, agora quarenta e tantos anos depois. Confesso que pescaria não era um de meus passatempos preferidos. Para falar a verdade, estava bem longe de sê-lo.

Não sei dizer quem tinha mais nojo e aversão ao outro: se eu das minhocas ou elas de mim. Pois o nojo que sentia por elas já era um impeditivo para a prática daquele esporte. Sabendo disso, vovô se apressava a dizer-me para ficar tranquilo, que ele mesmo colocaria a isca na vara. Só que ainda existia um outro obstáculo à prática: a pescaria é um esporte que exige paciência. Precisa-se ficar ali, parado, de pé, em silêncio absoluto, esperando que um peixe desatento pense que vá pescar uma minhoca; o fato se dá ao contrário: é a minhoca que pesca o peixe.

Acontece que paciência e silêncio eram duas coisas que não combinavam definitivamente comigo; gostava de falar, contar causos, fazer intrigas e chamar a atenção.

Por estas e por outras, resolvi que faria daquela pescaria uma ocasião para agitar o pedaço.

Quando chegamos à beira do rio, depois de alguns quilômetros rodados no carro de vovô, o mesmo foi à procura de um recanto onde pudéssemos fazer os preparativos para a pescaria e depois deliciarmo-nos com um lanche especialmente preparado por vovó. Nada como comemorar os peixes pescados do que com um belo misto-quente e guaraná.

Vovô encontrou o seu recanto embaixo de uma linda e frondosa árvore. Objetos depositados ao chão, começaram os preparativos e montagens das varas de pescar. Lá se encontrava o pote de Nescau com as minhocas já preparadas para serem degustadas pelos peixes famintos.

Durante a reparação das varas, vovô chamou-me a atenção inúmeras vezes:

- "Silêncio, Beto, eu já lhe pedi silêncio."

Pois é, mas silêncio é o que eu não queria fazer, em definitivo.

Assim que as varas ficaram prontas, vovô deu o comando e estabeleceu os lugares que caberiam a cada um: a fila começava por ele e depois estendia-se pelos três netos, em ordem cronológica: primeiro o neto mais velho, Guto, depois eu, depois o mais novo, André. Tudo certinho um do lado do do outro.

Boys Fishing - Langdown

Como os peixes que caberiam à minha vara estavam demorando a dar a cara, resolvi que deveria cantar uma bela canção; quem sabe assim eles se sentiriam estimulados a abocanhar a minhoca.

A indignação foi geral. Vovô, na posição de líder, falou:

- "Carlos Alberto. Fique calado ou vai receber um castigo!."

- "Eu já não aguento mais esperar."

- "Mas não faz nem dez minutos que estamos aqui. Calma que você já vai pegar o seu peixe."

Respondi com mais canções, até que vovô ordenou:

- "Saia já daí e vá para debaixo da árvore. Para você a pescaria já terminou."

Ah, é, pensei, para mim ela só estava começando. Deixei o grupo e fui até a árvore. Lá observei que vovô deixara a caixinha de ferramentas aberta, onde pude ver o seu alicate de estimação. Livrei-me da vara, pequei o alicate e fui em direção à tropa, que estava imóvel à espera dos peixes.

Ao me aproximar, comecei um movimento de jogar o alicate para o alto e pegá-lo antes que o mesmo caísse ao chão. Era alicate para cima, alicate para baixo.

Quando vovô viu o que estava acontecendo, ficou pálido:

- "Guarde já este alicate. Você sabe que é o meu alicate de estimação."

- "Sei, sim, vovô, e vou jogá-lo para os peixes comerem."

- "Faça isto e você vai apanhar como nunca na vid...." - a palavra não acabou de ser pronunciada. Antes que ele pudesse completá-la, o alicate já voava em direção à superfície da água. Em questão de segundos o mesmo sumiu, deixando um rastro de lindos círculos que iam se expandindo em raios cada vez maiores.

Vovô então cumpriu a promessa. Pegou a sua vara, que era a mais grossa das quatro, e voou em direção a mim com a mesma em punho. Que eu sabia que iria apanhar, sabia, claro.Só não imaginava que seria com uma vara de pescar. Doeu, viu!

Contos, fábulas, brincadeiras infantis. Sonhos de criança. Tudo isto fez-me lembrar da etiqueta que criei para a designer de objetos de charme Aurélia Pichoun, da marca De Aurélia. Aurélia é francesa e reside no Brasil há alguns anos. Nascida na Provence, sul da França, trouxe de lá inspiração suficiente para criar objetos infantis para brincar de casinha, no jardim ou na cozinha. Tudo o que faz é irresistível para as crianças e para nós adultos.


E para retratar a etiqueta, criei um cenário todo especial, utilizando-me de uma fonte de água, dois sapinhos de pelúcia e alguns vasinhos de violetas. O casal de sapos foi para o rio curtir uma linda manhã de sol, assim como eu fui um dia com meus irmãos e avô.


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