19 de jun de 2012

O noivo


Para mim tudo aquilo era motivo de festa, de comemoração. Finalmente estava próximo o dia em que seria alçado ao estrelato: o casamento de minha prima Dalva.

Eu, juntamente com minha querida prima Patricia Cristina, fomos convidados a sermos pajem e dama de honra do casamento de Dalva e Alex.

Não cabia em mim de tanta alegria. A timidez não me impedia de desejar adentrar naquela igreja ao som da marcha nupcial e sob o olhar curioso de todos os presentes. A mim ficara claro: tinha nascido com alma de artista.

Os preparativos para o casamento se intensificavam à medida que os dias iam se aproximando da data. Estávamos em 1972, em um Brasil governado a mãos de ferro pelo governo militar de Emílio Garrastazu Médici.


A noiva tinha pela frente um grande desafio: fazer com que eu, mais baixo que Patricia, pudesse ficar mais alto que ela. A solução encontrada foi mandar fazer um sapato plataforma que me deixaria centímetros mais alto que Patricia.


Somente este fato já era suficiente para que a minha imaginação corresse a frente dos acontecimentos.

Lembro-me das primeiras provas de roupa, com a noiva escolhendo e palpitando com o alfaiate os detalhes da roupa que iria usar. O terno seria azul-marinho, com camisa branca engomada e gravata borboleta prateada. Tudo presente da noiva.


A roupa de Patricia também não ficaria para trás. O vestido seria em tafetá amanteigado, levemente armado, com detalhes em renda chatilly, e com o comprimento ligeiramente acima dos joelhos. Na cintura penderia uma fita em cetim larga, arrematada por um arranjo de mini camélias. Vestindo as pernas, meia-calça branca e nos pés, sapato boneca pérola.


Meus pais foram convidados a padrinhos de religioso, o que os faria assistirem de camarote a minha entrada triunfal.

Estava tudo certo. Quer dizer, eu pensava que estava tudo certo, mas na verdade, não estava. A notícia chegara uma semana antes do casamento e caíra como uma bomba na família e - como extensão - à todos os convidados e membros da sociedade local. O casamento não mais aconteceria como estava escrito no convite, impresso em letras times new roman pretas. O noivo, que achávamos chamar-se Alexandre, descobrira-se, na verdade chamar-se Adamastor, e o mesmo era um guerrilheiro fugido do Araguaia. Estava naquelas bandas tentando esconder-se dos militares que já estavam à sua caça.


Adamastor achara que esconder-se em uma cidade pequena e distante como Araçatuba seria a condição ideal para manter-se vivo. Desta forma, estabelecera-se na cidade com o codinome Alexandre, dizendo-se dentista formado na capital (de fato o era), solteiro, à procura de uma jovem donzela para namorar. Foi assim que conhecera Dalva e os dois se enamoraram. Dalva, ao descobrir a verdadeira identidade do amado, fora proibida pelos pais de casar-se com ele. Adamastor (ex-Alex) chegou a propor-lhe que fugissem, mas Dalva não teve coragem. Preferiu ficar ali na cidade, chorando o destino que lhe coubera. O noivo, por sua vez, fugira na calada da noite com medo de vir a ser denunciado por algum convidado enraivecido por perder a anunciada festa de arromba. Eu, nem precisa dizer... Em apenas alguns segundos passei da raiva à tristeza. Ainda não seria daquela vez que seria alçado à fama. Além do quê doía-me pensar que não calçaria o tal sapato plataforma que me deixaria centímetros mais alto que Patrícia.Como você pode ver,esta história foi literalmente um banho de água fria na minha cabeça.

A história acima tem pitadas de realidade somadas a uma boa dose de imaginação. Dalva realmente existiu. Infelizmente partiu há pouco ainda jovem, vítima de um ataque cardíaco. Depois deste episódio fantasioso, encontrou um novo amor, teve dois filhos, amou e foi muito amada por parentes e amigos.

Aproveito a sua história para contar a história de meu encontro profissional com a excelente designer de roupas e vestidos de noiva, EMANNUELLE JUNQUEIRA. Talentosa, vem galgando um espaço invejável neste segmento de mercado.


Sou o responsável pela etiqueta de sua marca, bem como o galão pendurador de suas roupas.


Criei para ela um tag em tecido e um tecido que - apesar de não produzidos - não perdem a majestade. O tecido - em especial - foi criado pensando-se na utilização do mesmo para forrar as caixas que acondicionam os vestidos; podendo vir ainda a ser utilizado como sacos para acondicionar sapatos e adereços de cabeça.



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