6 de fev de 2013

Meu nome é João


Pavão. João Pavão. Este é o seu nome de batismo. Exótico, não acha? Pois o sobrenome Pavão falou mais alto e assim João passou a ser chamado e conhecido entre amigos e familiares. Quem o conhece sabe que ele sempre foi muito vaidoso. O espelho fora sem dúvida o amigo de todas as horas; algumas vezes, seu cúmplice nas conquistas empreendidas em razão da beleza. Quando pequeno não saia de casa para a escola antes de checar e avaliar o resultado da brilhantina em seus cachos caídos à testa. Na adolescência, resolveu direcionar a vaidade para os estudos; bem que tentou ser o primeiro aluno da classe, mas a cada tentativa acabava sempre nocauteado por um colega de óculos de aro preto que tinha cara, cabeça e cabelo de gênio. Foi então que Pavão parou e pensou: "tenho que direcionar o foco para o que tenho de melhor" . E foi este insight que fez Pavão passar a viver de sua beleza, que aliás, de grega não tinha nada. Mais que belo, Pavão era - como sua mãe não cansava de lhe dizer - charmoso. Assim como o bicho homônimo, encantava a todos com sua presença. Enquanto pôde, Pavão reinou sozinho nos terreiros por onde passou. Teve todas as mulheres que quis; matou de inveja muitos marmanjos não tão belos quanto ele; ganhou bons trabalhos que exigiam "boa aparência", e assim - degrau a degrau - subiu na vida e alcançou o topo. Pavão
tornou-se um homem rico. Seu caso com o espelho, porém, só acabou quando o mesmo resolveu fazer terapia. Por mais que tivesse tudo o que a vida pudesse lhe proporcionar, ainda assim, Pavão tinha um sentimento que lhe incomodava e o enchia de vazio. O analista o fez entender que se quisesse vir a se tornar realmente feliz, teria que mudar seu modo de ser; passar a enxergar coisas, pessoas e situações que não via por simplesmente não enxergar o que estava fora do alance do espelho; ou seja, ele só conseguia olhar para
seu próprio umbigo. Pavão passou a entender que o vazio que sentia era, na verdade, um convite para que o mesmo abandonasse velhos princípios e passasse a cultivar novos valores. Seria preciso adquirir novos hábitos, selar novas amizades e também conquistar novas habilidades: nada a ver com a própria beleza e sim tudo a ver com a beleza existente no outro e - em extensão - na vida.

Pavão precisou aprender a olhar para os lados e descobrir novos ângulos na paisagem à sua volta. O primeiro passo para a mudança veio com a aposentadoria do espelho. No começo foi muito difícil.

Pavão chegou a desistir várias vezes mas, como a cada tentativa o vazio aumentava ainda mais, o jeito era continuar tentando. Hoje pode-se dizer que Pavão se transformou em uma outra pessoa. Muitas vezes nem se lembra que é bonito. Vire e mexe passa por um espelho e nem se olha. Outro dia, uma pessoa que lhe conheceu na infância e há muito não o via, disse-lhe que hoje ele está muito mais bonito do que no passado. Mas, por incrível que pareça, isto não já não tem mais a mínima importância. À quem lhe ressalta a beleza, ele agradece e segue em frente.. E mais: quando lhe perguntam o nome ele responde: - "João....meu nome é João".

Pavão é o tema deste tecido que desenvolvi e produzi para a SANTA LOLLA. O mesmo foi concebido para servir de papel-de-parede das lojas da marca. Sua aplicação poderia também vir a se dar em maxi-bolsas, já que o desenho da estampa não é pequeno. Para a sua construção, utilizei-me do fundo em tafetá e bordei o desenho em fio de lã. Isto deu ao tecido um volume todo especial. As variantes de cores feitas são: verde limão e eucalipto; parnaíba e pimenta; rosa e cinza; off-white e laranja; e off-white e amarelo.

Confira o resultado.


Pelo tema proposto tratar de vaidade e beleza física, fui ao encontro de um cenário que pudesse retratá-lo. Encontrei-o em uma belíssima fonte de água (está vazia) adornada por figuras mitológicas, situada em frente ao parque Ibirapuera, em São Paulo.


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