31 de dez de 2011

Gravata: substantivo. singular, feminino


O convite para conhecer Dora, proprietária da marca de roupas femininas (A)NNEXE, partiu de sua irmã Mirian, já minha amiga e cliente há alguns anos. Em nossa conversa inicial, mostrei-lhe meus books de trabalho contendo os vários tecidos já feitos. Dora ficou bastante entusiasmada com as possibilidades existentes nele e solicitou-me, de pronto, que desenvolvesse um tecido baseado em um dos temas de sua coleção primavera/verão 2012: summer resort.


Se você notar bem, um dos elementos desta estampa é uma bolsa listrada, que remete ao universo navy. Dora sugeriu-me que me apropriasse da figura da bolsa e a envolvesse em meio a listras, hora mais grossas, hora mais finas, e transformasse estes elementos em uma estampa de gravataria (vide rough feito à caneta por ela).


Eis aqui o resultado:


O fundo é neutro (off-white), e o desenho foi construido em tons de azul profundo e ferrari. A estampa é ideal para a utilização em acessórios como carteiras de mão, bolsas em tamanho médio a grande, incluindo aí mochilas, e também sandálias de dedo, sapatilhas e pumpies em geral.


Nunca uma estampa masculina foi tão feminina.

29 de dez de 2011

Vamos apanhar fruta no pé


As frutas apanhadas na tenra infância têm mais sabor.


Lembro-me muito bem dos momentos prazerosos (e saborosos) que passei ao lado de meus irmãos e amigos queridos brincando em uma chácara que minha avó paterna tinha nos arredores da cidade.


Ficávamos ali horas a fio em busca das frutas da estação. Aprendemos desde cedo que as frutas, bem como as estações do ano, têm o tempo certo para aparecerem.


Tem a época da banana, do abacaxi, do limão, da laranja, da tangerina, da goiaba, da acerola, da uva, da jaboticaba, do caju, da manga, da carambola, do tamarindo, do pêssego,do abacate, e até da jaca: aquela que a gente tem que ficar de olho para não cair na cabeça.


Acredite se quiser: todas as frutas citadas acima podiam ser  encontradas naquela chácara.


Ela era um verdadeiro oásis de plantas e frutas. Maçãs não tinha. Estas a gente tinha que comprar no supermercado.


O tecido feito para Bianca Ranucci, à época Lolie, fala das frutas. O desenho nos deixa em dúvida se as frutas em questão são cerejas ou maçãs. Mas isto pouco importa. A fruta que aparece aberta, pela metade, parece-me uma pinha (ou fruta-do-conde para alguns); fruta esta que também tinha na chácara.


Produzimos quatro variantes de cores, sendo somente uma delas visualizada aqui: a de fundo baunilha com desenho em asfalto.


As outras foram: ferrugem com cipó; chocolate com castanho trilobal e preto com granito.
O tecido ganhou destaque em editorial da revista CLAUDIA.


Abaixo você pode ver a livre interpretação da estampa no desenho aquarelado que fiz: usei para fazê-lo lápis preto e vermelho, e giz de cera nas cores cereja, rosa e verde.


A chácara de minha avo não existe mais. Ela, as frutas e as flores se foram. Mas vivem fresquinhas na minha memória. Sinto que até posso pegá-las.


DÁ UM PEDACINHO?

Dá um pedacinho?
Um pedacinho eu dou, mas olha lá, hem!!!
E a gente fica de olho rezando pro outro cumprir a promessa
Afinal, aprender a dividir o que a gente ama e deseja é muito difícil
Dar para o outro parte do que desejamos é um exercício que requer tempo e paciência
Muitos não aprendem a lição jamais. Passam pela vida comendo a fruta sozinhos,
achando que estão ganhando com isso
Mas tem coisa melhor do que dividir algo com alguém?
Penso que não. O sabor da partilha é doce e único
Dividir o pão. Esta é a lição que Jesus ensinou
Ah, dividir. O segredo de quem divide é que quando você vê, já multiplicou
É desta forma que ganhamos a vida. Um dia alguém dividiu com outro uma noite de amor
E desta noite nasceu o fruto que somos nós. Cada um com seu sabor

27 de dez de 2011

Uma obra de mestre


Cenário: Indonésia

Personagens:
O mestre artesão e seu discípulo

Cena 1:

O mestre e seu discípulo tecem um Ikat enquanto falam da vida no vilarejo

Os ikats são tecidos artesanais seculares, feitos através de técnica apurada, onde fios de lã, algodão ou seda são tingidos em cores muito vivas e  tramados e amarrados a fios sem tingimento, formando  desenhos muito especiais, com inspirações étnicas, tribais e o que mais vier à cabeça do artesão.


A produção dos mesmos se dá - principalmente - em países como Indonésia, Japão, Índia e Guatemala. Eles fazem a festa de designers de interiores e arquitetos do mundo inteiro, que os transformam em cortinas, revestimento de parede, almofadas, sofás, poltronas, namoradeiras, cadeiras, abajures etc.


Os designers de roupas e acessórios também os utilizam com propriedade em suas coleções. Prova disso são as coleções já feitas por grifes como Balenciaga, Gucci e Proenza Schouler.


Cena 2:

Este tecido, em especial, foi desenvolvido para a marca de roupas e acessórios feminina ALCAÇUZ. Foram produzidas três variantes, todas elas em fundo de algodão cru.


As cores da variante apresentada em destaque são beterraba, off-white e carvão. As duas outras duas são: uva, sépia e camafeu; e marrocos, gengibre claro e camafeu.


Veja como o tecido cai bem, seja qual for a proposta:


Cena 3:

O mundo caminha hoje na direção da valorização do artesanal, do hand-made, que tem como característica principal o domínio de técnicas específicas, locais, e que demandam - geralmente - muito tempo de execução.
Se pensarmos bem, este é um contra-ponto ao modus vivendi das civilizações atuais, que vivem à beira do caos com a rapidez das informações, técnicas, tendências, know-how e utilzação de máquinários que nascem hoje para tornarem-se obsoletos amanhã.

Cena 4:

O mestre e o discípulo, param ao final do dia para admirarem um pedaço da obra que - daqui a alguns meses - estará finalmente completa. Uma lição de paciência, foco, perseverança e determinação de quem sabe que na vida, nada se faz da noite para o dia.

22 de dez de 2011

O menino que fabricava lágrimas


Estava distraido, voltando para casa depois de um dia exaustivo, quando avistei o garoto. Sentado ali no meio-fio, sua imagem era o retrato da desolação. Segurava uma caixinha de Mentex no colo e mantinha a cabeça baixa por entre os braços esquálidos, apoiada pelas mãos. Pude notar quando uma lágrima rolou para dentro da caixa. O choro podia ser ouvido mesmo quando abafado, hora aqui, hora ali, pelo ruido ensurdecedor dos carros que passavam. Achei estranho quando o vi levantando levemente a cabeça e olhando sorrateiramente para mim, que naquele momento atravessava a rua em sua direção. Era como se, fazendo assim, ele pudesse confirmar que estava sendo notado. Quando me aproximei veio a abordagem: " Moço, me ajuda. Me dá R$ 15,00 nessa caixa de Mentex para que eu possa voltar pra casa. Se eu chego com ela cheia, minha mãe me dá a maior surra." Por um momento, fiquei sem ação diante daquele rosto encharcado de lágrimas. Pedi desculpas, porém não me desculpando, por estar sem dinheiro. À noite, quase não dormi de tanto remorso. Aquele rosto não me saia da cabeça. No dia seguinte, mesmo trajeto, mesmo menino na calçada. Desta vez ele não me viu e pude vê-lo levando a mão direita até o meio-fio e molhando o seu rosto estrategicamente com a água suja que corria pela calçada. Pude ver que ele estava fabricando as lágrimas para o espetáculo de logo mais à noite. Que coisa, não é: logo cedo estes meninos aprendem a arte da representação que lhes garante o sustento, vindo de lágrimas fabricadas na calçada.


O tecido em questão foi feito para a marca Theodora, de Rita Wainer. Peguei um desenho em caneta-tinteiro que ela havia feito em um papel vegetal e fiz a adaptação para o jacquard. Entendi que o uso do ouro metálico para construir as lágrimas e o coração poderia dar um efeito e um sentido todo especial ao tecido.


Aproveito o espaço para mostrar-lhe mais um pouco dos grafites que registro pela cidade. Desta vez o tema será  OS MENINOS QUE VI POR AÍ.